29012021 — t

por Aurora Jamelo

hoje começo esse texto com uma outra sensação. agora, neste exato momento, me sinto muitas. e tenho aprendido com todas elas.

de fato o ano que não deve ser mencionado foi de aprendizados, apesar das dores e das saudades. não sei o que deu no planeta ou na humanidade, mas algo ou alguém ou (?) quis que nós vivêssemos isso. ou só provocou sem querer.

senti meu corpo em frequência, vezes essa estável, com ondas pouco sinuosas, outras, em picos de agonia, incerteza, um tanto de dor. mas tentei guardar em mim, ouvindo ao longe, num silêncio ensurdecedor, essa bomba explodir, aos poucos.

faz parte.

disso eu tiro experiência. é como aprender a andar de bicicleta. todo dia.

mas nem só de melancholia viverá a travesti, não é mesmo? e falo disso reconhecendo algum privilégio que estar aqui, viva, a vida me deu. existiu e existe afeto, e apesar de não estar perto, dá pra ficar juntinho.

mô.

faz quase um ano que não vejo o menino que eu gosto, aquele dos girassóis e também do suco de laranja com biscoito maisena, pra sua surpresa, eu sei. tento encarar esse tempo como uma viagem. eu ou ele em algum outro lugar da terra que não no mesmo espaço físico. tem dias que são como estar no país mais remoto que ainda nem se sabe da existência em pleno século XXI. nesses dias a vontade de sentir na pele o toque, me atravessa tão grande que transborda. por outros dias eu tenho medo de esquecer como ele é, o rosto, as mãos, o dedo indicador apontando pro chão, mas basta um tempinho pra que essa coisa gigante dentro de mim, (talvez uma das formas do amor) me conte, com calma, como é cada pedacinho do viver esse afeto que me faz ser tanto.

a noite, quase como uma oração, eu peço pra te ver nos sonhos, e te sinto.

talvez eu tenha desistido um pouco de lutar. não que eu desisti propriamente, essa não é muito uma opção que tenho. é que me senti cansada, sabe?

sabe mesmo?

busquei refazer e respeitar meu lugar. comprei lençóis novos, mudei a decoração, fiz uma lista e risquei quase tudo com uma tinta vermelha. cuidei do lugar que eu moro, que eu durmo, que sim também é uma casa, um quarto, mas antes de tudo sou eu. é, talvez eu esteja me cobrando maturidade demais, nem cheguei aos 24 anos ainda e sempre me dizem que sou novinha. mas esse desejo de me encontrar mulher, consciente e confiante, me alimenta de certezas, ou quase, que me fazem entender e absorver a serenidade necessária pra sobreviver aos dias, me fazem ter orgulho das respostas calmamente agressivas que vez ou outra preciso dar a alguém. algumas pessoas chamam isso de classe, eu não faço ideia do que seja exatamente, só tenho me preparado pra ser cirúrgica nos dias que só quero andar na rua e um macho escroto achar que eu estou à venda. por prazer. prazer é todo meu de acabar com o seu.

mulheres da minha vida.

as vezes receio que isso aqui fique repetitivo todo ano, mas sempre me deparo e descubro novas nuances dessas mulheres que me criaram e que eu crio também.
minha irmã continua dando orgulho, na maioria das vezes. nessa fase da adolescência, tenho tentado criar ainda mais um laço de intimidade, cumplicidade e afeto, afinal, por mais que a gente tenha histórias de nascimento diferentes, eu ainda receio que ela passe por dores que eu passei há alguns anos. hoje tô aqui, longe de casa, e fico de coração molinho quando chega de noite e ela pergunta se eu tô acordada pra poder me ligar e só conversar comigo.
eu tive um sonho difícil com minha mãe há algum tempo. isso me fez refletir tanta coisa. queria que ela fosse eterna pra sempre, bem redundante mesmo que é pra confirmar o pedido. por vezes tenho que assumir o lugar de mãe e dar bronca, mas torço e espero que ela saiba que a filha dela só quer que ela fique bem e seja feliz.
ano passado eu dei um presente bem chique pra minha vó, fiz questão. não é que um objeto vá cumprir com todas as funções de valorizar a mulher brilhante que ela é, mas é um pedacinho de carinho pra que ela brilhe mais ainda. eu quero muito ser como ela quando crescer, e falo isso com uma certeza que nossinhora. ela vive me dando metros e metros de tecido, e de uma forma muito genuína, fico muito feliz de carregar um tanto dessa herança dela comigo.

sim, tô longe de casa, na paraíba, primeira vez na vida que deixo pernambuco.

ser atriz tem dessas coisas de deixar a casa, por um ou dois momentos que sejam, curtos ou longos. vim aqui contar outra história, que é minha, aurora, da minha amiga e preparadora, sophia, da minha musa inspiradora e diretora, jorja e também de tantas outras mulheres trans e travestis que são como nós, e também completamente diferentes, mas que sentem e sabem a imensidão desse sentir.

tenho levado pra vida e pro agora, então te digo: se sentir dor, dance.

desaforada bucólica
serena
tigresa

mulher
travesti
indígena
quilombola

artista

teimosa

resistindo

axé

29 de janeiro de 2021. brasil
dia da visibilidade trans e travesti

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multiartista e escritora por desaforo

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Aurora Jamelo

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